A vontade é dizer não. A facilidade é dizer sim. Diz-se sim (ainda que anteriormente se tenha dito não), porque senão a criança chora. Diz-se sim, porque senão a criança grita. Diz-se sim, porque afinal de contas quem manda lá em casa já é a criança, e os pais nem sequer deram por isso.
As minhas crianças também choram. Também gritam, também fazem birras. Mas também sabem que de nada lhes serve. E, aos poucos, começam a perceber que melhor do que chorar pelo brinquedo novo, é tentar negociar "Ofereces-me este no próximo Natal ou nos meus anos?" Ainda que o Natal esteja a meio ano de distância, ainda que o último aniversário tenha sido o mês passado. As minhas crianças estão a aprender a saber esperar e a não querer tudo para ontem. E eu fico feliz quando (como aconteceu no passado dia da criança) lhes dou de presente um brinquedo que durante o ano tinha sido arrumado por castigo, e os seus olhares brilham de alegria: reconhecem o brinquedo, não é novo, mas é sinal que eles mereceram voltar a tê-lo. Sentem-se importantes. Eles ficaram felizes com um brinquedo que já era deles, sem questionar porque não tiveram um novo, afinal de contas era dia da criança. E eu fiquei feliz pelas tantas vezes que disse não e os ouvi chorar desenfreadamente, ainda que fosse mais fácil dizer sim e vê-los sorrir.
Uma época em que tudo é permitido sempre tornou infelizes aqueles que nela viveram. Disciplina, abstinência, cortesia, música, moral, poesia, forma, proibição, tudo isso tem como sentido último conferir à vida uma forma bem delimitada e determinada. Não existe felicidade desregrada. Não existe grande felicidade sem grandes tabus. Até no mundo dos negócios não podemos correr atrás de qualquer vantagem, porque nos arriscamos a não chegar a lugar nenhum. O limite é o segredo dos fenómenos, o mistério da força, da felicidade, da fé e da nossa missão, que é a de nos afirmarmos como ínfimos seres humanos num universo.
Robert Musil, in 'O Homem sem Qualidades'
Robert Musil, in 'O Homem sem Qualidades'
